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Marcos Piangers + KrypCast: Entrevista especial de Dia dos Pais

Neste dia dos pais, tivemos a honra de entrevistar o pai mais famoso do Brasil: Marcos Piangers!

Além de jornalista, Marcos Piangers é conhecido pelas obras “Papai é Pop” 1 e 2, e “Mamãe é Rock”, que ficaram durante muitos meses na lista dos livros mais vendidos do Brasil. Na internet, possui quase 2 milhões de likes na fanpage e é muito querido pelos textos, frases e vídeos inspiradores que posta na internet, principalmente em seu canal no YouTube.

Marcos Piangers deu uma entrevista exclusiva pra a Kryp, contando como foi o processo de descoberta da gravidez, o que ser pai influenciou na vida pessoal e profissional, quais os planos para o futuro e dicas valiosas para aspirantes a pais e jornalistas!

Ouça nosso primeiro KrypCast com a entrevista completa, ou leia esse bate papo na íntegra aqui embaixo!

Feliz dia dos pais para todos os pais do Brasil! Se inspirem para que o mundo tenha mais Piangers por aí! 😉

Divirtam-se:

  1. Você sempre quis ter filhos?

M.P: Por não ter tido pai, acho que realmente tive uma vontade de substituir aquilo que eu não tive, então, desde muito jovem, celebrava a questão da paternidade! Nunca foi muito planejado, mas achava sempre divertido ter crianças em casa por perto.

Sempre fui aquele cara mais brincalhão com crianças e, quando a minha esposa me contou que estava grávida, foi uma alegria lá em casa! A gente ficou muito, muito feliz, ela ficou muito nervosa, mas eu fiquei muito animado. Claro que depois entendi aquele nervosismo todo, a minha esposa estava passando por uma série de modificações fisiológicas, sociais, profissionais que eu não estava passando.

Depois de um tempo eu fiquei entendendo esse lado dela, como vida dela foi transformada pela gravidez, isso não acontece tanto na vida do homem. Por isso foi impactante, percebendo e aprendendo com o passar do tempo, não só com gravidez, mas depois do nascimento das minhas filhas, a capacidade de desenvolvimento de empatia, de percepção de que existem outras realidades mais complicadas do que a sua e essa vontade de ajudar todo mundo que passa por dificuldades. O filho te transforma realmente em uma pessoa melhor e te transforma numa pessoa mais preocupada com o seu entorno, menos preocupado só com você.

  1. Como você descreve sua vida antes e depois de ser pai antes de ser pai?

M.P: Antes de ser pai, você basicamente tem aspirações profissionais, tem alguma relação familiar com seus pais, tios, primos. Mas o nascimento de um filho é um marco muito importante no desenvolvimento de um amor que você não imaginava existir, que eu não imaginava existir. Desenvolvimento de um amor infinito por outra pessoa, que te ensina muito a respeito das relações e que te faz entender, inclusive, a sua mãe. Depois que você tem filho, entende seus pais. Você entende porque eles eram tão preocupados, porque eles diziam “não”, impunham limites e porque eles se posicionavam de algumas formas que agora é sua vez se posicionar.  Porque  basicamente nossos pais nos amam mais do que a eles próprios e o mesmo acontece quando a gente tem filho. Essa percepção e essa persona que vem junto com o filho, que te transforma em uma pessoa melhor, mais educada, preocupada com o mundo ecologicamente, porque você sabe que a coisa mais importante do mundo vai ficar ali para viver mais tempo que você.

Te transforma nessa pessoa nova e se você for humilde, dedicado, atencioso e participativo, você com o tempo vai se mudando e melhorando cada vez mais. Acho que não existe uma virada de chave, não existe um interruptor que liga ou desliga o pai, ele vai aprendendo com o tempo, ele vai se moldando, melhorando e humildemente reconhecendo seus erros, tentando ser melhor.

  1. Como surgiu a ideia do papai é pop?

M.P: O livro “Papai é pop” é uma compilação de crônicas, que eu passei escrever desde 2012/13, lá na no jornal Zero Hora, em um caderno de família, e comecei a juntar no livro essas crônicas. Foi um convite de uma editora pequena aqui do Sul, que tinha essa vontade de lançar um livro, não tinha muitas pretensões eu não achava que ia vender muito. A própria editora acreditava que era uma aposta modesta e no lançamento a gente já percebeu que alguma coisa estava “errada” no bom sentido, porque foram 5 horas dando autógrafos e aí o livro rapidamente já entrou na lista dos mais vendidos do Brasil e lá ficou por meses. Um ano depois a gente lançou “O papai é pop 2” e “A mamãe é rock”, também ficaram na lista dos mais vendidos e “O papai é pop” voltou para a lista dos mais vendidos.

Então agora, esse ano, a gente está lançando história em quadrinhos do “papai é pop” e a ideia é que essa discussão sobre pais mais presentes, mais participativos, sobre homens desconstruídos de todos aqueles dogmas que a gente é treinado socialmente, essa desconstrução seja saudável, uma discussão que continua acontecendo até finalmente a gente chegar num ponto em que a sociedade está equilibrada, e “O papai é pop” virou obsoleto e por conta disso todos os pais já estão participando, e aí não precisa mais escrever sobre o assunto e nem fazer palestra.

  1. Ser pai mudou em alguma coisa na sua carreira como jornalista?

M.P: Muita coisa! Eu costumo dizer que existe uma mantra moderno que é o da correria. Então te perguntam sempre “E aí como é que você está?” E a resposta padrão é “Correria, correria, estou correndo, muito trabalho!” . Está todo mundo olhando no WhatsApp, mandando e-mail, restaurante, almoço com os amigos sempre olhando para o celular. Existe um status na correria, existe uma celebração desse home útil profissionalmente, que está sempre trabalhando, a mulher produtiva que está sempre respondendo e-mail.

O que eu acho que é bonito de ver, é que os filhos nos fazem questionar tudo isso.  Quando um filho pergunta o tempo todo “por quê?”, “Porque que eu tenho que ir na aula?”, “Porque que eu tenho que tomar banho?”, o filho está nos ajudando a nos questionar também a entender a nossa motivação e entender “Porque eu estou trabalhando?”, “Porque eu estou naquela empresa?”, “Porque eu fiz aquela escolha profissional?”. E a perceber nessa motivação, nesse questionamento das decisões que a gente tomou na vida, começar a perceber que produtividade não tem a ver com o trabalho. Que, normalmente, você gera valor trabalhando bastante mas que você estar trabalhando bastante não significa que você está gerando valor.

Quantas reuniões de 3 horas você fez que não levaram a lugar nenhum, quantos relatórios que você preencheu que ninguém nunca leu, quantas vezes você trabalhou em um projeto por meses para depois perceber que esse projeto não levava a lugar nenhum e que ninguém estava interessado nele, você estava só “enchendo linguiça”, fazendo hora extra e deixando de pegar o seu filho na creche para fazer um trabalho inútil.

Então estes questionamentos são questionamentos que os nossos filhos nos dão. Quando as minhas filhas nasceram, profissionalmente eu reorganizei minha, vida meu tempo para ser mais feliz, mais realizado e percebi que depois fiquei mais produtivo, também. Porque você começa a perceber que é mais produtivo em alguns horários que, não necessariamente é o horário que o escritório demanda, começa a perceber que, quando você organiza sua vida em função dos filhos, você se obriga a ser mais produtivo nos horários de trabalho, nos horários que você tem que entregar alguma coisa, então você é mais focado.

Acho que as minhas filhas me ajudaram também na questão da criatividade, elas emprestam uma inventividade, um olhar desprovido de limites, que é a característica do olhar infantil. O que influência grande no trabalho, também, a percepção de que você pode trabalhar com mais bom-humor, elas trouxeram para mim, também, uma calma, uma paz, de não estar sempre disputando com outras pessoas ou uma batalha infinita por dinheiro. A percepção de que você pode viver com menos, mais feliz e que você tem que questionar toda vez que o seu chefe te desrespeita, porque quando ele está desrespeitando você, ele está desrespeitando o seu tempo, na verdade ele está desrespeitando o tempo com a sua família, está desrespeitando os seus filhos, desrespeitando a sua esposa. Então você questionar e buscar uma sociedade mais justa, é, também, buscar uma sociedade mais justa profissionalmente.

  1. Eu vi que a sua filha Anita é super feminista, você apoia?

M.P: (Risos!) Esse termo “feminismo” está carregado de preconceitos, né? Que eu espero que sejam cada vez mais vencidos esses preconceitos contra o feminismo. Feminismo nada mais é do que igualdade, uma batalha, uma busca por uma trégua, um acordo de paz, um aperto de mãos entre homens e mulheres.

Agente já vive brigando, a gente já vive falando mal um do outro. Homens falando que mulheres são isso ou são aquilo e mulheres fazendo o mesmo. O feminismo veio para ser uma trégua, ser um ponto de amizade, de dizer “Olha, vamos fazer as pazes, vamos ter relacionamentos mais saudáveis. Vamos ser mais sinceros um com o outro, vamos parar de disputar entre marido e mulher, e vamos ser mais transparentes um com o outro para ter relacionamentos mais felizes”.

Claro que sim! Claro que eu acho que é maravilhoso ver a minha filha perceber o seu lugar na sociedade, percebendo o seu potencial como pessoa e percebendo que ela não é menor do que qualquer outra pessoa porque ela é mulher – omo sistematicamente a sociedade tenta dizer para ela, né, “ela é mulher ela está com TPM”, “Falou demais é porque ela está estressada”, “Vai arrumar um namorado”, esse tipo de expressão que diminui qualquer opinião ou posicionamento dela não é aceito lá em casa e é incentivado que ela não aceite nunca.

A nossa busca é que ela seja tudo que ela pode ser, ela explore seus potenciais ao máximo, com a minha mãe me incentivou a explorar os meus potenciais. Então acho que é muito legal que a Anita tenha essa visão e fico agradecido à minha esposa, por ter me ensinado muito a respeito de igualdade de gênero e colocado esse tema lá em casa. Acho que vai tornar as meninas mais posicionados, mais felizes e muito mais fortes!

  1. Você aborda questões como sexualidade igualdade de gênero? Você considera isso um assunto importante para ser tratado com os filhos hoje em dia?

M.P: Sim, na idade certa! A gente costuma sexualizar muito as crianças, existe uma tradição masculina de, assim que nasce um menino, os comentários já giram em torno de “A vai pegar bastante mulher”, “Esse vai ser namorador”, “Esse daí vai pegar todo o mundo”, “Esse vai ser garanhão”, então existe um orgulho masculino no homem que é infiel, basicamente, que trai a mulher e que engana e tudo mais.

Existe essa celebração do homem que pega geral e isso é uma prisão que você, homem, é colocado desde pequeno. Uma prisão que é super desconfortável, porque em determinado momento você não pode falar dos seus sentimentos, você não pode dizer “eu te amo”, você não pode ser afetuoso, não pode ser sensível. Porque o maior medo do homem é ser confundido com homossexual, que os amigos digam que ele é gay, então essa construção social ela é destruidora emocionalmente e destrói relacionamentos no futuro, destrói a sua relação com a sua esposa e destrói depois sua relação com seus filhos. Então desconstruir isso é muito maneiro, é muito saudável, só que acho, também, que as crianças não podem ser sexualizadas muito no início, né?

Da mesma forma como a gente fala para os meninos “Ah vai pegar geral”, que é absolutamente errado, imagina uma criança de 3 anos anos, um garoto não faz nem ideia do que seja sexo e a gente já está falando para ele que ele vai pegar geral. Ele também não sabe o que é homossexualidade e a gente está preocupado com essas questões, então se ele põe rosa fica todo mundo comentando “Ah ele é homossexual, é gay” e uma criança de 3 anos não sabe de nada disso.

Tem a hora certa, o momento certo de conversar, o pai tem que estar por perto para entender, mas é uma discussão que vai ser cada vez mais importante numa sociedade cada vez mais igual e tolerante. Da mesma forma como a gente já escravizou negros, como a gente já matou gays, como a gente continua matando, nossa esperança, minha esperança é que a gente evolua como sociedade e possa ser mais tolerante, e acho que eu crio as minhas filhas para isso.

Espero que vocês, mães de meninos, pais de meninos, criem seus filhos homens também, para que a gente tenha uma sociedade mais tolerante.

  1. Você falou sobre criar para uma geração a frente da nossa. Como você vê as suas filhas no futuro como consumidores e usuários da internet?

M.P: O Steve Jobs inventou o iPad e ele não tinha iPad em casa, o Bill Gates inventou o computador pessoal com Windows e ele disse que só daria um computador para os filhos depois que eles lessem bastante, o Chris Anderson que é fundador da Wide, a maior revista de tecnologia do mundo, ele controla o uso de tecnologia na casa dele, dos filhos dele. Porque todas as pessoas que têm relação com tecnologia sabem que esses sistemas são construídos para nos viciar, e que a exposição demasiada a telas causa uma série de problemas cognitivos e desvantagens competitivas, inclusive profissionalmente.

Então, sem dúvida, eu acho que o futuro vai ter cada vez mais tecnologia, cada vez mais as pessoas vão usar a tecnologia. Tenho convicção que as minhas filhas vão usar óculos inteligentes, relógios inteligentes, pulseiras inteligentes, roupas inteligentes, computação ambiental, a capacidade você simplesmente conversar com computador e, através da nuvem, ele realizar todos aqueles processos que você faria olhando para a tela e o quanto isso pode, também, nos distanciar da realidade, plugar em uma realidade virtual e de todos os perigos que a tecnologia traz junto com a comunidade que ela oferece, com a comodidade que ela oferece.

O que eu quero dizer é: vai existir mais tecnologia e a popularização das inovações tecnológicas vai criar oportunidades financeiras, oportunidades para indústrias, para empresas, oportunidades para marcas e todo mundo que se preparar para esse futuro, que já existe, já está sendo desenvolvido, vai ter uma vantagem competitiva no mercado.

Agora, o que é importante é que as minhas filhas saibam construir e utilizar a tecnologia para alguma coisa nova. Costumo sempre fazer a relação com carro, o carro é uma tecnologia maravilhosa, nos permite viajar rapidamente, permite que você tenha, agilidade, conforto, segurança … Mas, ao mesmo tempo polui, ao mesmo tempo mata em acidentes. Ou seja, você pode fazer uma opção mais saudável de levar seu filho para a escola a pé ou de bicicleta, justamente pensando nessas questões de sustentabilidade, de felicidade pessoal. Então é isso que eu tento passar para as minhas filhas, a noção de que é óbvio que a tecnologia vai andar para frente, que a gente vai viver cada vez mais rodeado de tecnologia, mas que é muito importante que elas, não só dominem a tecnologia, a capacidade de criar inovações tecnológicas, inovações criativas que ofereço soluções melhores para problemas antigos, mas que elas percebam que esses sistemas são construídos por pessoas como elas, muitas vezes para simplesmente nos anestesiar o cérebro e nos viciar.

  1. Você quer ter mais filhos?

M.P: Sim! (risos) Eu quero, a gente fala em adoção, eu e a minha esposa, ela não quer mais engravidar, mas a gente quer ter mais filhos sim! Então no momento a gente discute adoção e, quem sabe, né? Estamos nos planejando. As minhas filhas, a gente vai muito em instituições de caridade, muitos abrigos de crianças, então elas já estão começando a se acostumar com a ideia. Daqui a pouco a Anita, que é a mais velha, de 12, ela aprova a ideia.

  1. Muitos pais falam sobre essa geração que não brinca na rua e só fica na internet. Você acha que a internet é boa ou ruim para essas crianças e para o desenvolvimento delas?

M.P: Eu acho que é um pouco clichê essa história, eu, quando era pequeno, já não brincava mais na rua.  Já era perigoso, sabe, você sair brincar na rua, continua a mesma coisa, hoje em dia, cada vez mais. não te digo cada vez mais. Acho que é super importante brincadeiras analógicas e isso pode ser feito no apartamento. Acho que o maior problema moderno não é as crianças não estarem brincando na rua, é os pais não estarem com as crianças, porque querendo ou não, nossos pais tinha mais tempo para a gente, sabe, nosso vô ficava alí de bobeira, e a gente não fica de bobeira, a gente celebra a correria, a gente acha que estar o tempo todo ocupado é muito importante, “meu Deus do céu estou com meu filho, depois vou no cinema e depois vou comprar pão, depois eu vou na casa de um amiguinho, depois tem festa”. Sempre tem alguma coisa, a gente tem esse problema de não se sentir confortável parando, sentando em uma cadeira e olhando o movimento na rua.

Então, essa incapacidade de estar mais calmo, de estar conversando de forma mais calma com nossos filhos, de estar entendendo os sentimentos deles, de estar entendendo as emoções deles, de estar brincando de forma analógica junto com eles. Lá em casa a gente faz nossos próprios jogos de tabuleiros, a gente constrói brinquedos na mão, a gente tem moldes, recorta, cola.

Essa capacidade de você brincar com brincadeiras que demoram, que exigem paciência, ensina uma série de coisas para as crianças. Pensa comigo: se uma criança pega um iPad e ele aperta um botão e o iPad faz exatamente o que ele quer, na hora que ele quer, ele tem uma recompensa imediata e o treinamento e a educação de mostrar para criança que ela pode ter uma recompensa lá na frente, né, mais distante do factual, mais distante daquele momento, é um ensinamento profundamente válido. Por que a vida não é imediata, certo?

Você, para construir uma carreira você precisa se dedicar, demora para você construir uma carreira, para você construiu um casamento demora, para você conquistar a pessoa e conversar e afinar ponteiros, sabe? Para você criar um filho demora e a gente está muito imediatista, a gente tem tudo que a gente quer, na hora que a gente quer, aperta um botão e o computador resolve tudo para a gente. A gente começa a ficar impaciente, impertinente, a gente começa a ficar sem empatia, a gente começa a ficar grosseiro e esses ensinamentos são muito importantes para os nossos filhos.

As brincadeiras analógicas e o tempo gasto com paciência do lado deles, oferece essa oportunidade que os filhos aprendam paciência, aprendam recompensa mais lá para a frente, entendam a dinâmica da vida, que é uma dinâmica que exige paciência, exige dedicação e exige trabalho. Você tá ensinando coisas valiosas quando você gasta tempo e quando você brinca de brincadeiras antigas, analógicas, de madeira e de papel.

Agora, eu nunca vou falar mal da internet, sabe? A internet é maravilhosa! Minha filha ela tem acesso a todas as informações do mundo no Google, ela aprendeu francês, ela prende japonês nos aplicativos, ela sabe coisas que eu aprendi o mês passado. Então, aos 12 anos ela já tem acessos muito interessantes, mas todo esse acesso é importante que seja monitorado, né, que você seja uma espécie de mentor, de tutor, de inspirador para o seu filho para que ele procure as coisas que o incentivem a produzir criativamente e não ficar basicamente vendo bobagem no YouTube, consumindo besteira no Instagram ou falando bobagem no WhatsApp.

Então, a internet é maravilhosa, a tecnologia é maravilhosa, a gente só precisa ser um pouquinho mais responsável na criação dos nossos filhos. Só trazer alguns pontos que você falou, se eu acho que é bom ruim, acho que é muito ruim tela para crianças muito novas! Alguns estudos científicos novos, estão mostrando que crianças expostas a tablets e celulares com menos de 1 ano, menos de 2 anos cria um comportamento autista. Eles não estão dentro do espectro autista mas estão dentro de um comportamento autista, uma impertinência, uma falta de sociabilização e problemas oculares evidentemente, porque seu olho está simplesmente focado em um ponto, em vez de treinar musculatura ocular, você está focado em um ponto da tela. Então é muito perigoso a gente terceirizar a educação dos nossos filhos para tela nesse período dos quatro primeiros anos, dos cinco primeiros anos de vida, em que 90% da construção neural da criança está sendo constituída.

  1. Se você pudesse dar duas dicas sobre o que fazer e outra sobre o que não fazer para o país do futuro quais seriam?

M.P: O que não fazer, vou começar, porque acho que a gente mais erra do que acerta, né? Então, o que eu acho que a gente não deveria fazer é replicar os maus comportamentos das gerações anteriores. A gente tende a achar que, porque o nosso pai nos batia, então também vou bater no meu filho porque deu tudo certo comigo então, vou ensinar isso para ele, ele vai aprender. Meu pai me dava castigo e era duro, não falava “eu te amo”, então vou fazer a mesma coisa porque daí meu filho vai aprender, vai ser legal.

Essa lógica é uma lógica que não respeita um conceito simples de evolução social e científica. Cada ano que passa a gente tem mais ferramentas para entender o que é a criação de filho e qual o valor de um pai afetuoso, de um pai amoroso, de um pai que participa e que não é simplesmente o pagador de contas então replicar os nossos comportamentos das gerações anteriores é o principal erro da nossa geração. Porque é simplesmente um problema que a gente vai perpetuar, algo que nos marcou negativamente. Por mais que você seja uma pessoa maravilhosa, você se tornou uma pessoa maravilhosa apesar das palmadas, apesar da falta de amor, apesar das dificuldades que você passou. Então, ter um pai amoroso, que seja participativo e atencioso, que lide bem com as emoções dos seus filhos, é uma forma de quebrar esse ciclo e de dar ao filho uma referência.

Então essa seria a dica. Eu sou muito curioso, converso com muitos pais. Perguntei o segredo para vários pais que têm filhos felizes e todos eles disseram: primeiro lugar você precisa ser amigo do seu filho, conversar com seu filho, ter um canal de conversa com seu filho, que ele possa ter a segurança sempre que tiver um problema, vir até você e você seja uma referência, um farol em todo momento de escuridão. O segundo ponto é entender que a profissão do nosso filho nunca é a profissão ideal para a gente.

Não era cool você ser chef de cozinha há 20 anos, não era cool ser comediante há 20 anos e agora é. Então, talvez seu filho que está mexendo com videogame, por exemplo, talvez não seja a profissão ideal, talvez você fique com medo e tenha inseguranças relacionadas à profissão do seu filho, mas dá a ele essa oportunidade de explorar suas potencialidades e descobrir alguma coisa em que ele seja bom é, muito importante!

  1. Alguma sugestão fundamental para novos jornalistas que serão o futuro da profissão?

M.P: Sim, acho que o jornalismo passa por uma crise, e é uma crise grave de credibilidade e de entendimento das novas tecnologias. Fico muito frustrado quando eu vou em universidades, eu vou dar entrevista para o curso de jornalismo e lá tem um estúdio com duas câmeras cruzadas, com pessoas, servidores públicos muitas vezes, atrás das câmeras, com cabos grossos levando as câmeras plugadas numa mesa de corte, com outra lá atrás fazendo todos os cortes e o apresentador é uma aluna do segundo semestre que imita Ana Paula Padrão. Isso é uma comunicação do passado!

É muito triste perceber que os ambientes escolares e universitários estão treinando os nossos jovens para habilidades do passado. Talvez o problema do desemprego não seja a crise, talvez o problema do desemprego seja a nossa inabilidade para preparar os nossos jovens para o futuro e para ficar só emulando uma indústria, ou várias indústrias que estão diminuindo, não crescendo.

Então eu fico muito frustrado quando o ambiente universitário, que era para ser a vanguarda a experimentação laboratorial, ainda emula tudo aquilo que eu estudei há 20 anos. Há 20 anos eu estava na faculdade estudando exatamente câmera cruzada, apresentação do jornal, teleprompter, chroma key e acho que as universidades e o jornalismo deveriam estar estudando vídeo na vertical, entendimento de edição de vídeo, produção dom DSLR, redes sociais, distribuição, SEO, Facebook, Snapchat, Instagram, lives e isso deveria ser o treinamento do jornalista moderno, que tem hoje ferramentas para oferecer o critério jornalístico, a investigação jornalística, o serviço social jornalístico de uma forma mais brilhante, de uma forma mais efetiva e distribuída para que os conteúdos sejam de fato consumidos e impactantes para as pessoas.

Então, se eu tivesse uma dica, uma sugestão fundamental para os jornalistas, seria essa: se você continuar fazendo o que todo mundo fez no passado você estará cultivando uma lógica antiga e ultrapassada. Está nas mãos dos novos profissionais recriaram essa profissão que é fundamental na fiscalização dos políticos, na fiscalização dos governantes, para que a gente tem uma sociedade mais justa.

 

E, aí? O que acharam da entrevista com Marcos Piangers?

 

 

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